Recentemente, um artigo da NASA intitulado “Quente demais para lidar: como as mudanças climáticas podem tornar alguns lugares quentes demais para se viver” causou alvoroço ao sugerir que o Brasil poderia se tornar inabitável até 2070 devido ao calor extremo. No entanto, essa interpretação distorce o verdadeiro conteúdo do estudo científico.
A pesquisa, liderada por Colin Raymond e publicada em 2020 na Science Advances, foca na temperatura do bulbo úmido (TW), que combina a temperatura do ar e a umidade relativa para avaliar o estresse térmico no corpo humano. Uma TW de 35°C é considerada o limite superior da tolerância humana, além do qual o corpo não consegue mais se resfriar adequadamente.
Analisando dados de 1979 a 2017, o estudo constatou que eventos de calor e umidade próximos a esse limite estão se tornando mais frequentes. Em 21 de julho de 2024, um recorde de temperatura global de 17,09°C foi registrado, o que eleva igualmente a temperatura do bulbo úmido.
O estudo não projeta que o Brasil, ou qualquer outro lugar, se tornará inabitável em 50 anos. A menção ao Brasil como uma região vulnerável foi feita em um artigo de 2022, baseado em entrevistas com Raymond, mas não é uma conclusão definitiva. No estudo original, o Brasil não é mencionado.
Especialistas como Pedro Camarinha e Karina Lima enfatizam que as interpretações alarmistas são distorcidas. Camarinha ressalta que afirmar a inabitabilidade do país ignora as capacidades de adaptação humana e os esforços de mitigação climática. Lima reforça que o estudo original não faz projeções catastróficas, mas alerta para a necessidade de ações urgentes contra o aquecimento global.
O estudo aponta riscos significativos de calor extremo, especialmente em áreas urbanizadas e regiões costeiras. Fernando Cesario, da The Nature Conservancy, destaca que lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e o entorno do Rio Amazonas são altamente vulneráveis devido à alta urbanização e evaporação de enormes volumes de água.
A pesquisa de Raymond é um dos muitos alertas sobre a crescente frequência e intensidade de eventos de calor extremo no mundo, especialmente no sul da Ásia, Oriente Médio e sudoeste da América do Norte. Segundo dados do estudo, o número de casos de calor extremo que podem levar à morte triplicou em 40 anos. Carlos Nobre, um dos principais climatologistas do Brasil, enfatiza a necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar a resiliência das comunidades.
Nos EUA, o calor foi a principal causa de morte relacionada ao clima entre 1991 e 2020, com uma média de 143 mortes anuais, superando enchentes e tornados. Estudos liderados por Camilo Mora encontraram 783 casos de calor extremo com morte em 164 cidades e 36 países, com 30% da população mundial exposta a essas condições em pelo menos 20 dias ao ano.
Para mitigar esses riscos, ações como a redução das emissões de gases de efeito estufa e a proteção das florestas são cruciais. Carlos Nobre alerta que, se não agirmos rapidamente, não conseguiremos aplicar soluções que impeçam o país de ferver até 2070.
A interpretação de que o Brasil se tornará inabitável até 2070 é uma extrapolação exagerada e não respaldada pelos dados científicos disponíveis. No entanto, a pesquisa sublinha a gravidade da crise climática e a necessidade de ações imediatas para limitar o aquecimento global e proteger a saúde e a segurança das populações vulneráveis. A mensagem é clara: devemos agir agora para evitar cenários extremos no futuro.